6 mitos sobre acústica que você deve conhecer antes de construir qualquer coisa

Na acústica, assim como em várias áreas da construção civil, existem vários consultores informais dando dicas milagrosas e soluções rápidas para problemas complexos. Um verdadeiro paraíso pra quem não quer gastar muito e quer resolver aquela dor de cabeça como quem toma um analgésico.


O problema é que nem tudo é tão simples assim e muitas dessas soluções podem trazer ainda mais dor de cabeça, consequências bastante severas e ainda pode trazer gastos extremamente desnecessários.


Esses ditos consultores estão em todas as partes com soluções rápidas para tudo e o único jeito de você escapar desta armadilha é conhecendo os seus argumentos e os motivos pelos quais estas soluções não funcionam. Vamos lá?


Folclore #1: caixa de ovo acústica

Todo mundo tem um amigo da caixa de ovo. Aquele amigo que passa o ano inteiro juntando caixas e mais caixas para fazer o home studio dele e de todos os amigos aspirantes a produtores musicais.

Figura 1: Ensaio de absorção de uma caixa de ovos

Mas afinal, caixa de ovo realmente serve para alguma coisa? Ao contrário do que muita gente acredita, caixa de ovo é um absorvedor muito pobre, com desempenho restrito às bandas de frequência mais altas. Portanto, ineficaz em qualquer tipo de tratamento acústico, seja isolamento ou condicionamento. Ou seja, caixa de ovo nada mais é do que um folclore!


Pra você ter uma ideia, se compararmos caixas de ovos com outros vários materiais vamos perceber que sua absorção está muito aquém da fama que carrega. Mas não é que a caixa de ovo não tenha um coeficiente de absorção, na verdade ela tem sim. Mas bem inapropriado para qualquer tipo de tratamento e muito longe de ser considerado um material acústico.

Folclore #2: espuma para isolamento acústico

Muita gente confunde conceitos básicos de isolamento e condicionamento acústico e acabam acreditando que na acústica tudo se resolve com materiais absorvedores porosos (se você ainda não sabe a diferença entre isolamento e condicionamento acústico, recomendo este artigo aqui).


Colocar espuma acústica em paredes na tentativa de aumentar o isolamento da superfície é mais um daqueles erros clássicos de conceituação. Pra falar bem a verdade, é um pouco mais complicado que isso! Portanto, encher paredes de espumas para aumentar isolamento acústico é mais um folclore!

*imagem de sala com espumas*


Mas agora vamos à explicação do porquê essa não é uma opção viável: Isolamento acústico está muito relacionado à massa e à rigidez de uma superfície. Ou seja, materiais refletores, densos e pesados desempenham este papel de forma muito mais eficiente do que materiais absorvedores que são, em sua grande maioria, materiais leves e de pouca densidade.


Boa parte da confusão, no entanto, aparece quando falamos em estruturas tipo massa-mola-massa, que são estruturas que usam superfícies rígidas intercaladas com material absorvedor. Nesse caso existe sim um material absorvedor mas que tem papel secundário, e não principal, no sistema. Isolamento acústico em estruturas desse tipo se dá muito mais pela mudança de meio (de meio rígido para meio fibroso e de volta para meio rígido) do que pelo absorvedor em si.

Nestas estruturas a lei das massas não se aplica de forma tão direta quanto em paredes de alvenaria ou em outros materiais rígidos. Sistemas multicamadas são a exceção da regra, ou seja, são materiais leves e com pouca rigidez mas que tem um desempenho acústico muito bom.


Folclore #3: estúdio coberto de espuma

Procure home studio no google e você vai encontrar dezenas de estúdios cobertos da mesma espuma do chão ao teto. No youtube você vai encontrar legiões de youtubers ensinando como fazer a mesma gambiarra. A ideia parece ter se espalhado mais rápido na cabeça das pessoas do que vírus da gripe.


O problema é que, principalmente quando se trata de estúdios de gravação, essa técnica pode trazer vários problemas. Em qualquer projeto acústico que seja, a utilização de um mesmo material com as mesmas propriedades para fazer o condicionamento do ambiente é extremamente desencorajado.


Utilizar um mesmo material pode fazer com que você cause uma atenuação exagerada em uma determinada frequência, ou em uma determinada região do espectro, e deixe outras regiões com pouca ou nenhuma diferença. No uso de absorvedores porosos como espumas, o problema aparece principalmente nas baixas frequências, onde esses absorvedores tem uma eficiência muito ruim.